01 dezembro 2010

ternura perdida

Carlos a viu saindo do prédio e tratou de acelerar o passo. Estela é uma moça exuberante, loira, do tipo que a cada passo desperta um novo olhar, sempre regado de desejos e sensações, é uma daquelas mulheres com disposição suficiente para equilibrar-se o dia todo em seu belíssimo Manolo Blahnik salto 15. 
Carlos atravessou a rua, se aproximou e jogou ao vento algo sobre o sentido da vida. A moça sorriu, dando o haval esperado para que ele divagasse mais ainda. Livros, filmes, uma frase-feita aqui, outra ali... pronto! ele conseguira um efeito bacana com seu papo "Mãmãe me ensinou direitinho". Estela, que não era familiarizada à esses temas, achou intrigante as linhas que ouvia vindas da boca daquele moreno. Que, por sua vez, fazia o dever de casa direitinho. Ele sabia se expor, falava de si mesmo de uma maneira devidamente bem pintada e florida, claro, para que sua vida parecesse mais interessante do realmente era. Como num "movimento Felliniano”, o rapaz criou belas histórias, convidando suas próprias memórias a interagir com a moça, pelo simples prazer de narrá-las em seu próprio palco... digo, sua(s) própria(s) vida(s). E que histórias... eram tantas e contadas de uma maneira tão envolvente, que ela nem se importava mais em saber se eram reais.

Estela, encantada, não pôde interrempê-lo. O rapaz tinha no olhar uma intensidade e de certa maneira também uma dor, que juntas, transformavam-se em belas palavras. E belas e bem colocadas palavras, transformam qualquer loucura dita, na mais bela frase de um recente Best-seller qualquer.

E então, após poucos desvios entre Carlos, carros, motos e o prédio de Estela, a moça se viu totalmente envolvida com aquilo que era tão difícil de encontrar hoje em dia: um pouco de ternura masculiana; tão sutil e tão forte. Carlos se expunha sem medo de parecer frágil ou sensível demais, ele não tinha o que temer, pois havia ali uma masculinidade tão bem resolvida que ele podia, enfim, se abrir e dividir seus pensamentos e sentimentos.

O tempo passara rápido demais, já eram 2 horas da manhã quando Estela olhou no espelho, e se enxergou Sylvia Rank. Ao lado, estava seu Marcello Rubini, num lugar onde a água era tão transparente que não parecia real. A bela loira refletida no espelho emudeceu, e indagou se aquilo era mesmo a realidade, e se fosse, será que acabaria um dia? Foi então quando ouviu Carlos apenas pontuando o momento: “*Não há nenhum fim. Não há nenhum começo. Há somente a paixão da vida” (*Federico Fellini)

Danado! O rapaz realmente tinha o dom para decorar boas frases. 
e encantar belas mulheres.

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