As pupilas dilatadas, o rosto encharcado de suor, os olhos zigzaguiando freneticamente, acompanhando os movimentos suaves e encantadores de Clarisse. O rapaz não piscava, não queria perder um único gesto da moça que o envolvia por completo. Do canto do salão da gafieira, vidrado, ele assistia Clarisse movimentando o corpo ao rítmo da música, como que numa dança dos anjos. Sim, porque ela só poderia ser um anjo.
Ela, por arrogância (ou charme) fez que não, mas percebeu seu olhar. Ela sempre percebia, e gostava. Pior, ela provocava, Clarisse sabia que era gostosa e abusava disso.
E nada mais importava naquele lugar, ela dançava pra ele, ela sorria pra ele, ela queria ele. E esse era seu mau, esse ímpeto de fêmea insaciável, essa vontade incontrolável. Quando dava conta de si, seu corpo já não era mais seu, sua boca já não era mais sua, o suor que exalava de seu corpo já pertencia a outro corpo. Quando ela via... bem, sim, ela via, mas seu olhar já não estava mais ali.
Clarisse ia longe em noites assim, sentia-se em êxtase nesses momentos e achava pena deles terminarem assim, tão sem encantamento, numa manhã seguinte qualquer, com toda a inevitável claridade envolvida e a transparência que não lhe cabia.
Clarisse queria mesmo era não sair da gafieira, onde o sol jamais queimaria seus já cansados neurônios.
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